quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Vitória

Este texto na verdade é uma redação de vestibular. Feito em 2005, quando prestei meu vestibular, ele ficou entre as 15 melhores redações da PUC-Campinas. Vão notar que poderia ter melhorado muita coisa, mas deixei como está, pois gosto dele assim. Sua simplicidade mostra que tenho que melhorar e desperta em mim um grande carinho por estas palavras. A proposta era desenvolver uma narração com base em um anúncio de jornal que dizia "Procura-se aflitivamente um pobre caderninho azul que tem escrito na capa a palavra 'endereços' e dentro está todo sujo, rabiscado e velho". O resultado, eu divido com vocês...
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Era uma tarde fria de sábado. O sol não aparecera o dia todo, escondido pelas nuvens que jogavam uma fina garoa sobre toda a cidade. As pessoas estavam, na sua maioria, em casa. A rua sete estava deserta, exceto por uma bela figura feminina que surgia entre a neblina que se formava, andando apressada, mas cautelosamente sobre os paralelepípedos. Era uma senhora de meia idade, de cabelos acinzentados e olhos fundos e brilhantes. Usava uma blusa branca e um jeans desbotado. Na algibeira, um jornal dobrado. Usava ainda um pequeno gorro de lã e sapatos pretos já gastos.

Chegando ao portão do número doze, entrou no garrido alpendre e bateu palmas. Quase que imediatamente a porta se abriu, revelando um robusto homem, também de meia idade, com a barba feita e cabelos bem cortados. Trajava uma calça preta e um paletó cinza sobre uma camisa muito branca. Tinha sapatos lustrosos que, juntamente com a roupa, davam-lhe uma aparência muito elegante.

A senhora fitou-o parecendo admirada. Segundos depois, ao notar que o cavalheiro também a olhava, sorrindo, retirou o jornal do bolso e entregou-lhe.

- Vi o seu anúncio no jornal – disse, parecendo um pouco nervosa – eu encontrei o seu caderno, estava na minha lanchonete. O senhor deve tê-lo esquecido lá. Bem, – hesitou um pouco ao observar certa inquietação no homem que continuava sorridente – acho que o senhor está de saída, desculpe.

- Imagina! Não estava de saída, certamente – disse de imediato. Venha, entre, tome um café comigo, para agradecer pelo caderno - Ditas estas palavras seu sorriso aumentou ainda mais.

- Desculpe-me, mas não poderia, estou um pouco atrasada, outra hora talvez – disse-lhe educadamente, mas tropeçando nas palavras.

- Então pode ser em outro momento, não? – insistiu.

A senhora pareceu refletir um pouco. Em seguida, disse-lhe:

- É, tudo bem... Pode ser amanhã? Como é domingo, posso vir após a missa. Digo, se não for incomodar.

- De maneira alguma! – Disse prontamente.

- Então pode ser às onze... Desculpe vir assim, sem avisar, mas o senhor não deixou telefone no anúncio, foi o pessoal do jornal que me deu seu endereço. Vim o mais depressa que pude, o aviso parecia urgente. – Disse, observando os olhos do homem, que miravam os seus, brilhando.

- Eu...

Ele pareceu meio desconcertado, e estava certamente. Diante da fuga das palavras, sorriu novamente e foi correspondido.

A senhora entregou-lhe o pequeno caderno. Ambos pararam por um instante se olhando, o que para ele pareceu um bom tempo. Ela se despediu e saiu.

Ele viu a mulher se distanciar e ficou olhando-a até que sumisse na esquina. Em seguida, jogou o caderninho porta adentro e deu um grande suspiro.

- Se ela soubesse o trabalho que me deu perder este caderno... E ainda mais fazê-la encontrá-lo. Esse tal de amor mexe mesmo com a gente...

E fechou a porta, ansioso pelo dia seguinte.

6 comentários:

Marcelo R. Rezende disse...

Que trem de redação mais linda!
Emocionei.

Au disse...

Muito bom!
Merecido estar entre as 15 melhores redações... Me surpreendi bastante com o final. E depois me imaginei na situação dele, perder o caderno em um lugar estratégico para alguém em especial encontrar. Difícil.
Mas o amor é assim, quando é fácil demais torna-se desinteressante!


Abraço!

Felipe Faverani disse...

Oi, Dragoni, tudo bem?
Tenho tentado perder o meu caderno, mas meus braços insistem em querer segurá-lo. Acabo sendo minha pior distração na busca pelo amor.
Sua redação está incrível, foi merecido ter ficado entre as 15 melhores sem dúvida alguma. Com certeza quem leu e deu nota à sua redação sentiu-se muito bem por ler algo tão especial.
Grande abraço.

Dragoni disse...

Obrigado a todos, fico muito feliz pelos comentários, principalmente por gostar tanto deste texto...

Marcelo, quase tão linda quanto seus textos... =]

Au, falou certo, amor difícil é amos gostoso.

Felipe, todos nós seguramos um pouco nossos "cadernos", por medo ou insegurança, talvez. No momento certo, sei que você não será mais distração... Torço por isso.

Abraços a todos!

Anônimo disse...

Texto muito bom.Parabens pelo seu poder na escrita.

Se puder da uma passadinha no meu blog tbm.

http://essenciaego.blogspot.com/

Abraço
Serei frequentador assído do seu.

Anônimo disse...

Texto muito bom.Parabens pelo seu poder na escrita.

Se puder da uma passadinha no meu blog tbm.

http://essenciaego.blogspot.com/

Abraço
Serei frequentador assído do seu.